::criança/futuro versus saúde/presente::

abril 19th, 2011 § Deixe um comentário

Passamos por uma situação e tanto na última noite.

Tudo começou com a tal da adolescência e a insatisfação com o entorno global da vida de Clara. Nada, juro, nada está bom. A escola é chata, o inglês é chato, acordar cedo é chato, as roupas são chatas e, é claro, a mãe é chata. Daí, por volta das 10 da noite, a pele virou chata e a pequena resolveu passar um creme para peles extremamente ressecadas pra dar um jeito, porque, né, a cosmética taí pra isso mesmo.

“Mãe, acho que estou com uma reação alérgica”. Assim, na maior calma. Eu, que estava escrevendo, como de costume nesse horário, só levantei a cabeça esperando encontrar uma coceirinha… UAAAAAAU!!! Aquela coisinha linda e macia e rosada estava num tom de vermelho dos mais potentes, com umas placas e os olhos, ai, os olhos que eu mais amo no mundo estavam pra lá de… hum, quase deformados! Neura!!!! Corre pra cá, busca a chave do carro da titia Luiza – sempre salva! – e corre pro hospital. Corre, porque alergia é um mistério pra mim, sempre acho que vai acabar tudo muito mal em 3, 2, 1… e a Clara a falar: “mãe, calma, é só uma alergia”. Nem conseguia responder. Só queria chegar logo!

Chegamos. Corre pra entrada do PS… fechada! – Estamos em obras, entre pela porta principal – Ok, a porta principal fica a 10 minutos do retorno e aquela carinha ficando cada vez mais vermelha e eu cada vez mais tensa. Corre, Clara, vai pegando uma senha enquanto eu estaciono. Juro, corre mesmo porque alergia… “Ai, mãe, calma…”.

Gente do céu! Ontem deve ter sido dia mundial da criança no pronto socorro. Neste primeiro, nem chegamos a pergutar nada tamanho o caos que vimos: mães literalmente invadindo a sala de pré consulta pra saber em quanto tempo seus filhos – a maior parte bebezinhos – seriam atendidos. Pronto socorro não deve ter este nome em vão, não é mesmo?

Segunda parada: “Calma, mãe, dirige devagar, já nem está coçando tanto…”. Calma da onde, Clara? “Mãe, desculpa fazer tudo isso a essa hora, mas é que minha pele estava muito ruim mesmo.” Ah, cêjura que a pele de uma menina de 11 anos precisa de creme extraforte? Não, né? Vaidade tem limite, vaidade é, inclusive um pecado. Ou não… mas me pareceu algo muito perto de pecado quanto o ato de buscar cuidados exagerados pegou mal na minha filha, minha linda. – Senhora, temos apenas um pediatra disponível, e ele está na UTI cuidando de um bebê com parada respiratória – Clara tá respirando, ufa, então bom senso, pelamordedeus, e vamos procurar outro lugar… Filha, faz uma oração pra este nenê que está lá sendo cuidado pela única médica disponível. “Pronto, mãe, pedi pra ela ter atenção com ele e pro hospital ter mais médicos, porque imagina se fosse mais do que um nenê”. Tá entendendo porque é a vida da minha vida?

Terceiro hospital: ABARROTADO DE CRIANÇAS! Oi, moça, por favor… este é o terceiro hospital pra onde eu corro, olha o rosto da menina, vermelho, tá com alergia de creme, não sei… pode por favor ver se as coisas não estão piores do que estou vendo? “Ai, desculpa, minha mãe fica nervosa quando eu quebro uma unha, você sabe, ela me ama mais que tudo, exagerada, já tá melhorando… Mãe, calma!” A enfermeira olha, tira a pressão, vê o lance da oxigenação no sangue e define que não é prioridade. Ok. Mãe mais calma. Se não é prioridade, não tá tão feio quanto parece… Toca esperar uma hora e meia pelo atendimento do pediatra, enfim.

A noite foi passando, o sono batendo, a impaciência também… Clara teve que tomar mais remédios porque a alergia, naquela pele incrível, linda, fininha e sem nenhum sinal de estar “uma droga” antes do creme, aumentou. E anti alérgico dá sono… e muito anti alérgico deixa a mãe aqui um tanto preocupada, óbvio, é muito remédio que faz a criança – sim, 11 anos é criança!!! – chapar. Eu não gosto da minha filha chapada. Nem de remédio. Sou do tipo Tylenol é vida e deve resolver com muita água e repouso. Mas eu não sou médica e alergia é um mito pra mim.

Enquanto tudo isso passava, e enquanto aguardo a pequena ficar 100% de novo, escrevo este post desabafo e protesto: se pra gente, que tem plano de saúde, carro (mesmo que emprestado), condição de pagar um médico se for algo bem grave mesmo, tá difícil… imagina só pra quem não tem nada disso!!! É de deixar o coração apertado e a cabeça à mil pensar que tem muita, mas muita gente mesmo que passa por mais que isso com casos bem mais sérios com suas crianças e não tem recurso público, nem nenhum recurso, porque se os médicos reclamam que ganhar pouco do plano de saúde, imagina do governo…

Faço um mea culpa e agradeço pela condição que minha família tem de ajudar e estar sempre ali, inclusive nos pequenos momentos. E torço, rezo e espero do fundo do coração que alguém, algum dia, resolva prestar atenção no que significa “futuro do País” – afinal, que economia, política ou qualquer tipo de atuação vai acontecer se estas crianças não crescerem?

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